Relato de Henrique Avancini sobre a prova de MTB nas Olimpíadas

Relato de Henrique Avancini sobre a prova de MTB nas Olimpíadas

Longe de atingir seu objetivo, Henrique Avancini ainda assim conquistou o melhor resultado brasileiro no mountain bike cross country nos Jogos Olímpicos com o Top 23 e por pouco não melhorou a marca de Rubens Valeriano (21ª colocado em Pequim 2008).

O ciclista fluminense Henrique Avancini falou com exclusividade sobre sua preparação final para a prova de sua vida, suas frustrações e o que ocorreu detalhadamente durante a competição, principalmente após a corrida que precisou de cuidados médicos urgentes.

Com muita garra e luta, Avancini precisou superar muita dor causada por um estiramento muscular nas costas para fazer história nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Entenda tudo que rolou.
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Comente como foi sua preparação para chegar nos Jogos Olímpicos? (por exemplo: uso de tenda que simula altitude; afastamento das redes sociais; reclusão nas montanhas; etc).

Busquei me preparar da melhor maneira possível para os Jogos.  Esse ano tentamos ter um pouco de margem para chegarmos na reta final e poder fazer uma preparação mais agressiva. Escolhemos fazer uma preparação mais isolada. Conseguimos evoluir bastante. Cheguei num padrão nos treinamentos que nunca havia alcançado. Acho que foi o caminho certo a ser seguido. Cheguei pra corrida mais tranquilo e concentrado.

Qual foi a sensação de receber no “quintal” de casa os melhores atletas da modalidade e o orgulho de representar seu país?

A grande maioria dos atletas fizeram a preparação final na minha cidade. Fiquei muito feliz com isso, pois é um lugar que me deu muito na vida. A respeito da sensação de representar o país, acho que acima de tudo é uma questão de honra.  Por isso fiz questão de arriscar tudo na preparação. A oportunidade é única, e todo atleta deve entrar buscando o seu melhor e deixar o seu máximo na pista.
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Você vivenciou a atmosfera da vila olímpico? Teve oportunidade de trocar experiência com algum outro atleta?

Fiquei apenas 6 dias na Vila Olímpica. Fiquei mais concentrado nos treinos e recuperação do que na possibilidade de vivenciar a experiência da Vila. Geralmente o período que os atletas deixam para se confraternizarem e após as suas provas. Como corremos no último dia só sobra a cerimônia de encerramento, que eu gostaria de ir, porém não pude porque estava na policlínica da Vila Olímpica.

Sabíamos da sua chance de medalha e plena condição física e mental para conquistar tal objetivo, comente sobre a imprevisibilidade do esporte chamado mountain bike cross country.

Eu considerava as chances remotas, mas era possível. Larguei com a consciência de fazer algo digno que pudesse fazer a diferença para uma mudança na modalidade no país.  Os Jogos Olímpicos foram a maior oportunidade que eu tive de dar visibilidade para modalidade.

A prova em si, foi ruim.  Tive o problema nas costas, mas além disso não pilotei bem. Tomei algumas quedas e furei o pneu traseiro, por errar uma linha. Tivemos uma condição diferente no dia da prova. Ninguém treinou em condições molhadas na pistas e era a situação no dia da corrida.  Consegui evoluir bastante na pilotagem no seco, mas no molhado ainda fico muito além do nível dos melhores.

Obviamente as condições eram as mesmas para todos, mas nesse nível perder 1-2 segundos numa descida custa muito caro e fui pagando o preço pouco a pouco. Essa é a beleza da modalidade. Se olharmos na prova masculina a quantidade de quebras e quedas foi acima do normal. Foi um dia difícil e que saiu de lá com uma medalha no peito, fez por merecer.
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Relate como foram as 24 horas antes da competição, quanto a escolha dos equipamentos e alimentação.

No dia anterior sabíamos da possibilidade de chuva. Preparamos as rodas com opções diferentes. Fiz dois treinos curtos e de ativação muscular. Realizei os tratamentos de fisioterapia e alguns exercícios de concentração. Mudei a dieta como venho fazendo ao longo do ano na CFR, onde 2 dias antes da prova adotamos uma dieta de baixo resíduo, com o objetivo de abaixar cerca de 1kg sem gerar desequilíbrio energético.

O dia anterior a corrida foi bem tranquilo, dormi bem e estava com a sensação correta entre concentração e tranquilidade. No domingo acordei tomei café da manhã, e em seguida fiz um pequeno despertar muscular. Mais uma pequena refeição e segui para a pista.

Cheguei na pista e preparei meus equipamentos, controle de pressão e última checada na bike antes de começar a aquecer. Foi uma sensação muito intensa quando subi pro circuito. A vibração da galera foi algo surreal.

No evento teste você havia mostrado seu potencial de chegar ao pódio, na prova oficial você conquistou o Top 20, o que isso significa na sua carreira já que trata-se do melhor resultado brasileiro da história do MTB?

Individualmente, foi uma corrida que não deu certo. Isso faz parte do contexto e não teria ficado tão frustrado se não fosse uma prova com um significado tão importante. É uma corrida que vou guardar muito bem na memória, pois sem dúvidas aprendi muito do jeito difícil.

Após a prova algumas pessoas o criticaram nas redes sociais por não ter dado atenção ao público. O que aconteceu?

Durante a prova, comecei a sentir muita dor em uma parte das costas. Até ai tudo “normal” porque tive problemas nas costas durante o ano, e vinha fazendo um tratamento intensivo para manter o problema sob controle. Terminei a prova mal. Sai da pista e segui para a zona mista de entrevistas. Sinceramente, não tinha vontade de falar nada, mas era uma chance de falar um pouco da modalidade. No geral falei um pouco da minha dificuldade de lidar com as condições.

Quando sai da zona mista já falei com a Ana da CBC, que eu estava muito mal das costas. Ela disse “então passa por aqui e vamos no atendimento ver”…Nessa eu entrei por fora de um corredor onde a galera estava com os atletas. Sinceramente não estava raciocinado muito bem. Acabei indo pro atendimento e a equipe viu que tinha uma lesão mais grave nas costas. Tentaram liberar um pouco pra aliviar, pra que eu conseguisse me mexer melhor. Depois disso fomos de ambulância para a Policlínica da Vila Olímpica. Lá fui acompanhado por um médico do COB e pelo ortopedista também do Time Brasil. Fizemos o exame de ressonância magnética e a imagem acusou um estiramento na musculatura para vertebral. Óbvio que foi uma situação difícil pra mim, mas não dá pra julgar as pessoas que não entenderam o que aconteceu, afinal elas estavam lá para curtir o evento ao máximo.

Após o fim da festa, como acredita que os Jogos Rio 2016 vão ajudar no desenvolvimento do esporte?

É um ponto complexo. Os Jogos foram um grande impulso. As pessoas tiveram a oportunidade de se familiarizarem com o esporte e os atletas receberam investimento de curto prazo. Espero e acredito que os ganhos para o esporte de alto rendimento serão após os Jogos.

Com certeza é o passo mais importante para o desenvolvimento do esporte como um todo. O pós Jogos é que direciona o crescimento ou não do esporte no país. Dois exemplos são Grécia, que desperdiçou a oportunidade de criar uma política esportiva após Atenas, e Grã Bretanha que cresceu como nunca após os Jogos de Londres, terminado com a segunda colocação geral nos Jogos do Rio.

Qual é sua agenda para o restante da temporada e como enxerga o trabalho rumo à Tóquio 2020?

Para esse ano não sei o que será possível fazer. Primeiro tenho que recuperar da lesão e estabilizar meu corpo. O próximo compromisso seria a última etapa da Copa do Mundo em Andorra, mas acredito que não será possível competir porque ainda não consigo subir na bike. Espero me recuperar e conseguir terminar o ano. Gostaria muito de largar no Brasil Ride, mas ainda tenho que buscar uma parceria.

Tóquio ainda é algo a ser pensado e planejado. Consegui crescer muito no ciclo 2013-2016, mas o principal foi porque as coisas foram pensadas e estudadas com calma.

Texto: Redbull.com / fotos: © COB

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