Ciclistas cobram punições por atropelamentos em Florianópolis

Ciclistas cobram punições por atropelamentos em Florianópolis

Foto acima: Rogério Bitencourt que foi um dos ciclistas atropelados no último domingo dia 27 de dezembro de 2015, ele não sobreviveu.

Domingo, 15 de novembro de 2015, 8h. O engenheiro mecânico, professor do IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) e ciclista profissional Ivan Hubert, 55 anos, foi atropelado na SC-401, na altura do morro do Jardim da Paz, enquanto pedalava pelo acostamento no sentido Norte com um grupo de ciclistas. O carro o atingiu por trás, arremessou o corpo para o alto e arrastou a bicicleta por alguns metros. O motorista, embriagado, conforme atestou a Polícia Militar, tentou fugir, mas foi contido por populares no local. Hubert teve traumatismo craniano, perfuração no pulmão e fraturas na coluna que o deixaram por 23 dias em coma. Diferentemente de Róger Bitencourt, ele sobreviveu para contar a história.

Nesta segunda-feira, quando recebeu a reportagem do ND no seu apartamento, no bairro Trindade, Hubert comemorava com a família os 11 dias em que deixara o hospital, 32 dias após o acidente. Sem muitas lembranças e sob efeito do anticonvulsivo que precisa tomar durante um ano, o que acaba tornando a fala, memória e ação mais lentas, ele falou sobre o acidente e a impunidade que “protege infratores”. Para ele, que pedala há 41 anos, não há infraestrutura capaz de anular a imprudência. “Pode fazer ciclovia, ciclofaixa e até grade de proteção. Nada vai te salvar de um motorista bêbado”, afirma.

Ciclistas cobram punicoes por atropelamento em Florianopolis                                            Foto: Marco Santiago/ND

Hubert pedala desde os 13 anos. Integrou a seleção brasileira de ciclismo júnior em 1978 e conquistou diversos títulos estaduais e nacionais. Ele treinava três vezes por semana com um grupo de ciclistas. Sem poder competir ou mesmo andar de bicicleta por pelo menos seis meses, Hubert torce agora para se recuperar e voltar a fazer o que mais gosta: pedalar.

Diante da impunidade do motorista que o atropelou e em meio aos passos lentos do processo judicial movido pela família contra o infrator, a solução mais plausível defendida por Hubert é a punição. “Vamos construir ciclovias em todos os lugares? Vamos andar de bicicleta com armamento bélico? Não tem o que fazer a não ser criminalizar quem insiste em dirigir alcoolizado”, cobra.

“Não foi acidente”

A cobrança feita por Ivan Hubert é a mesma defendida pela jornalista, formada em educação física e atleta amadora de Balneário Camboriú, Márcia Bina. Ela foi atropelada no dia 30 de novembro do ano passado, às 7h de um domingo, também por um motorista embriagado, enquanto se preparava para disputar uma prova de corrida de rua na avenida Atlântica. Márcia foi atingida antes da corrida, no meio de uma das ruas fechadas para a prova, quando buscava uma camisa que esquecera no carro estacionado. Ficou presa entre dois carros, fraturou o quadril, duas vértebras da coluna e o ligamento do joelho.

Durante 70 dias ficou imóvel, depois precisou de cadeiras de rodas e muletas para se locomover e ainda faz fisioterapia para se recuperar das fraturas. “O carro estava em alta velocidade, deu um cavalo de pau, me atingiu e bateu em outros dois carros. Fui salva por populares e policiais que estavam no local e que não deixaram ele fugir”, conta.

Para Márcia, o abalo psicológico é maior que a dor física. “Nos tira sonhos ou vidas como foi no caso do Róger”, afirma. Ela disputou três meias maratonas e se preparava para correr a São Silvestre do ano passado.

Já em recuperação e em São Paulo para disputar a São Silvestre deste ano, no dia 31, Márcia defende o endurecimento da lei para garantir punição para quem dirige sob efeito do álcool. Ela faz parte de uma campanha nacional – “Não foi acidente!” – cuja petição com mais de um milhão de assinaturas cobra a prisão para este tipo de crime. A petição virou projeto de lei em 2011 e tramita no Senado.

“A legislação hoje é muito branda. Ninguém fica preso. Precisamos mudar essa cultura do país. Se tiver uma lei mais dura, se doer no bolso, se não ficar impune, temos como fazer isso. Ciclovia ou ciclofaixa não protege ninguém. O que protege é a consciência”, defende.

Fonte: m.ndonline.com.br  –  Keli Magri 

Foto capa: Arquivo pessoal Rogério Bitencourt. Ele foi um dos ciclistas atropelados no último domingo dia 27 de dezembro de 2015.

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